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segunda, 07 outubro 2013 00:00

A OPINIÃO SOBRE A FOTOGRAFIA DE SURF "POR ANDRÉ CARVALHO"

Trabalhador, metódico, criativo, humilde... Acho que quando um fotógrafo nos faz parar algumas vezes para ver o trabalho dele, aliás admirar, é porque é bom.

Fotografia… olhos que vêem, alma que sente com André Carvalho

Esta é a primeira entrevista de um ciclo de que iremos fazer a todos aqueles que através das suas lentes, nos fazem chegar os melhores e mais bem escolhidos momentos de surf. Vamos falar com aqueles que passam horas com os pés na areia e máquina em punho em busca daquele momento especial, os fotógrafos de surf. Vamos ter aqui, os melhores da nossa praça, e vamos conhecê-los um pouco mais, mas mais importante do isso, vamos conhecer melhor as suas visões fotográficas. Hoje trazemos-te uma personalidade irreverente, sempre pronto para uma boa sessão tal como para uma boa ‘rumba’. Fotógrafo bastante viajado, faz questão de ir ao limite em tudo, mas… sempre com tudo controlado. Falamos de André Carvalho, um dos melhores fotógrafos nacionais, com publicações nas principais revistas de surf nacionais, e com uma participação bastante activa no que diz respeito á edição gráfica da revista Surf Portugal.

 

 

 

Porquê a fotografia?

Acho que foi a ordem natural das coisas, sempre fui muito curioso com o que me rodeia. As pessoas, os sitios, os pormenores... A fotografia permitiu-me registar o meu olhar sobre as coisas, das mais pequenas às maiores, mesmo que às vezes para outra pessoa sejam insignificantes. É a minha visão sobre alguma coisa, é único, é meu, é a minha extensão... Naquele momento da foto, estou no meu mundo, perdido, extasiado.


Como no teu caso, achas que esta arte pode passar de pais para filhos como se de uma herança se tratasse?

Bem... sou um bocado suspeito para falar nisso, ahahahhaha. O meu pai é fotojornalista, a fotografia era a minha irmã, ou madrasta. Dividi um quarto com um ampliador durante algum tempo, ajudava imenso o meu pai na camera escura, ia muito a redacções de jornais, ou seja, eu vivi o processo todo fotográfico desde que nasci. Isso acabou por me influenciar, mas acho que só me apercebi dessa influência perto dos meus 20 anos.... Sempre fotografei mas tinha a sombra do meu pai sempre presente. Imagina todas as pessoas me perguntarem se ia ser fotógrafo!! não dava para aguentar, fui para design e fiz o meu percurso na fotografia práticamente sozinho e quando já estava com o curso terminado. Acredito que a formação é essencial, mesmo que não seja na area da fotografia. . Por isso acho que essa passagem de pais para filhos tem de ser muito natural, o filho se quiser há-de fotografar, senão... não vale a pena insistir.


Como é para ti uma ti uma foto perfeita?

Acho que acima de tudo tem de mexer connosco, mais pela pela composição dos elementos do que propriamente pelo efeito visual (sub-entenda-se photoshop). A luz é a base de tudo, uma boa luz é meio caminho andado, mas o equilibrio, da foto é importantissimo, tal como a emoção, a ousadia... É tão complicado e ao mesmo tempo é tão simples.


Que tipo de fotografia achas mais desafiante fazer?

No surf sem dúvida que é a fotografia dentro de água. Porque te exige uma boa forma fisica, colocação, coragem e uma boa dose de frustração. Sem ser de surf, acho que a fotografia de rua é a mais desafiante. Estamos num meio onde à partida as pessoas não querem ser fotografadas, tem que se agir rápido, estar muito atento, ser discreto e corajoso. Apontar, disparar e nunca perguntar se o podemos fazer. Faz a adrelanina subir a uns niveis bem fixes, principalmente se estivermos em sitios mais problemáticos.


Podes traçar o perfil de um bom fotógrafo?

Ter olho acima de tudo!! Trabalhador, metódico, criativo, humilde... Acho que quando um fotógrafo nos faz parar algumas vezes para ver o trabalho dele, aliás admirar, é porque é bom.


Quais são para ti os fotógrafos de referência?

Em portugal acho que temos muito bons fotógrafos, dentro e fora do surf, há muita gente que eu admiro e não só pela fotografia, também pela partilha e humildade que é muito importante. Acho que o Pedro Jorge e o Carlos Pinto deram o primeiro salto qualitativo na fotografia de surf e snowboard cá dentro, hoje em dia temos algum pessoal a fotografar e seria injusto esquecer-me de alguns ao mencionar nomes. Mas provavelmente eles vão aparecer aqui também nas entrevistas. Lá for a as referências são Morgan Massen, Scott Aichner, Tim Jones,  Brian Bielman, Jeff Flindt, Chris Burkard, Al Mackinnon, Mickey smith, Vincent Skoglund, Araon Chang e por aí fora... Curiosamente vou buscar muitas referências fora do surf, como é o caso de Henri Cartier Bresson, Steve Mcurry, Annie Leibovitz, Josef Koudelka, Abbas, David Alan Harvey, Robert Capa 


Qual a tua foto que mais te marcou?

Há várias, não posso escolher uma das filhas apenas! ehehehhe...A foto do Saca na cave, foi provavelmente a foto que me deu o empurrão que precisava. Um dia perfeito, mais nenhum fotógrafo e um tubo incrivel. Fiz a minha primeira capa na ONFIRE e primeira dupla página na SurfEurope. Não é das fotos que mais gosto, mas foi a que mais me marcou em termos de mediatismo.


Tens viajado? Qual a viagem que ficou na tua memória?

A última viagem que fiz foi este ano à Venezuela. E posso dizer que todas ficam na minha memória. Umas pela companhia, outras pelo sitio, outras pelas ondas, outras pelo clima... No ano passado desci sozinho a costa da Califórnia, talvez essa tenha tido um gostinho especial porque foi feita toda ao sabor da minha vontade. Sem horários, sem itenerário... fui para passear, surfar e fotografar. Melhor era difícil.


Quando preparas uma viagem, qual a tua maior preocupação?

hmmmm, confesso que não me preparo muito. Tento perceber a cultura do país e um pouco da sua história. Normalmente vejo na net 2 dias antes de arrancar! Gosto de ir meio à deriva, com uma ideia geográfica e cultural do sitio, mas pouco mais. Sou muito tagarela, chego lá e falo logo com toda a gente. É o melhor para nos situarmos e ambientarmos culturalmente e socialmente.

 

Qual foi para ti o surfista que mais te deu prazer fotografar?

Foi o Dane Reynolds na pedra branca em 2005!!! Eu não estava preparado para aquilo!! ahahhahahhaha.. Ia a descer as escadas e vejo o gajo a dar uma trancada e a vir a deslizar com o tail de uma maneira assustadora. Ele simplesmente destruía tudo o que mexia, até à data nem pensava que se podia fazer aquele tipo de surf naquela onda.

Como se cultiva uma relação surfista vs fotógrafo?
Acima de tudo tem de haver empatia! Se não te dás bem com o surfista vai ser complicado. Porque há vezes em que lhe vais ter de dar na cabeça e outras que ele te vai dar a ti! O diálogo é muito importante e complicado, muitas vezes a melhor foto não é onde estão as melhores ondas, há cenários que pedem um tipo de manobra, tudo isso implica coordenação. Outra coisa é que convém conheceres o surf de quem vais fotografar, faz-te antecipar reacções e poupa-te falhanços.


Dedicas-te à fotografia de surf, ou abraças outros desafios?

A fotografia de surf é um escape, é uma paixão. Mas sim fotografo muitos outros temas. Estou por exemplo a preparar um trabalho sobre o boxe, outro sobre viagens e só para chocar alguns puristas, sim faço alguns casamentos e com muito gosto!! ahhahahahaha


Durante 2 anos o teu atelier (Goma.pt) fez a edição gráfica da mais antiga revista de surf portuguesa a Surf Portugal. Como foi este desafio?

Foi o DESAFIO! foi o concretizar de um sonho e deu-me muita pica. O João valente tem uma cultura de surf brutal!! tal como de música, de cinema, fotografia... Tivemos muitas discussões saudáveis, partilhámos muitos pontos de vista e acho que ambos aprendemos neste processo, nós GOMA e SURFportugal. Ficou um gosto amargo no fim, apenas porque temos a certeza que que ainda havia muito por onde crescer, tanto a nível gráfico como de conceptualização da revista. Mas a vida é assim mesmo, foi excelente enquanto durou, que sabe se não surge outro projecto editorial ligado ao surf.

 

Queres deixar um conselho para quem esteja a pensar iniciar-se na fotografia?

fotografem, fotografem, fotografem, fotografem, errem muito e tentem perceber onde erraram, não tenham vergonha de errar e perguntem opiniões a quem não tem medo de dizer mal do vosso trabalho. As palmadinhas nas costas são óptimas para o ego e necessárias, mas muitas vezes são um entrave à evolução.


Planos para o futuro?

Continuar a divertir-me acima de tudo. Quando deixar de me divertir a fotografar, a fotografia deixa de ter sentido.


Gostava de agradecer a algumas pessoas, que foram e são essenciais em todo

o meu caminho como fotógrafo. Em primeiro aos meus sócios por aceitarem alguns atrasos e desconcentrações em alturas de boas ondas. Impossível não agradecer  ao Tozé, João valente, António Nielsen e Nuno bandeira, ao meu pai, João Oneill, António Pedro, Miguel Pedreira, Teresa Abraços, Capristano, Hélder Ferreira, Almendrix ao pessoal de st johns e claro a todos os fotógrafos que me fazem olhar para as suas fotos e pensar "Linda!!"

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